Tudo começou em março deste ano, com quinze chefs do Rio de Janeiro testando e aprovando o pirarucu selvagem, pescado de forma legal nos rios e lagos da Amazônia. Em seguida, foram realizadas palestras e oficinas para cerca de 250 pessoas envolvidas com gastronomia e sustentabilidade, que tiveram a oportunidade de conhecer um pouco da história do manejo sustentável e de degustar receitas preparadas com o peixe. E no início deste mês, o momento mais marcante do projeto Gosto da Amazônia até aqui: nove chefs do Rio e um de Manaus visitaram as terras indígenas Paumari, na região do Médio Purus, e conheceram de perto todos os benefícios sociais, econômicos e ambientais para as comunidades envolvidas com a atividade do manejo.

Ana Pedrosa, Ana Ribeiro, Andressa Cabral, Bianca Barbosa, Frédéric Monnier, Jéssica Trindade, Marcelo Barcellos, Ricardo Lapeyre, Teresa Corção e Milton Neto, de Manaus, formaram o time de chefs que participou da expedição à Amazônia, acompanhados de pesquisadores, antropólogos e indigenistas. Foram seis dias a bordo do barco Dona Diolinda, incluindo os três dias na aldeia, e na volta todos trouxeram na bagagem novos conhecimentos sobre a conservação da biodiversidade, a etnografia indígena dos Paumari, o apoio de organizações da sociedade civil aos povos tradicionais, o fortalecimento das organizações comunitárias, os desafios da produção extrativista em escala comercial e, é claro, muitas ideias de como preparar deliciosas receitas com o pirarucu selvagem.

A participação no Rio Gastronomia, de 16 a 18 e de 22 a 25 de agosto, com um restaurante especializado em pratos com pirarucu de manejo e uma barraca na feira de produtores, onde serão vendidos produtos da Amazônia extraídos de forma sustentável, será a próxima etapa do projeto, na qual cerca de 50.000 pessoas poderão conhecer a nova iguaria dos chefs da cidade. E finalizando a temporada de estreia do pirarucu de manejo no mercado do Rio, de 20 de setembro a 06 de outubro será realizado o Festival

Gosto da Amazônia no Cadeg que acrescentará mais uma atração ao seu já tradicional calendário de festivais, com restaurantes servindo pratos especiais preparados com pirarucu e lojas do mercado vendendo produtos amazônicos.

O manejo na Amazônia – O pirarucu (Arapaima gigas) é o maior peixe de escamas de água doce do mundo e se encontra principalmente na bacia Amazônica, podendo atingir até três metros de comprimento e 200kg de peso. Com uma inquestionável importância cultural, social e econômica para os povos indígenas e comunidades tradicionais da região, o manejo do pirarucu começou a ser implementado em 1999, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, e hoje está presente em 34 áreas protegidas e/ou com Acordos de Pesca devidamente autorizados pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

(Na foto, imagem de drone de indígenas Paumari num intervalo para almoço, num lago no rio Tapauá, na terra indígena Paumari. Os homens estavam pescando o pirarucu de manejo usando malhadeiras.
Foto Marizilda Cruppe/Divulgação)

O manejo desenvolvido nas diferentes áreas é baseado na organização social e produtiva das famílias e de suas representações associativas, e vem ganhando escala mais recentemente com a atuação conjunta de diversas comunidades manejadoras, organizações da sociedade civil e governamentais. A iniciativa é fruto da cooperação internacional entre o governo do Brasil e dos EUA, executada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) e Serviço Florestal dos EUA, com recursos da Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID), apoio da Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ), e participação da Operação Amazônia Nativa (OPAN), Conservação Estratégica (CSF), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), Memorial Chico Mendes (MCM), Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) e Associação dos Comunitários que trabalham com Desenvolvimento Sustentável no Município de Jutaí (ACJ).

Prática de uso sustentável e gestão participativa do recurso pesqueiro, o manejo comunitário garante a sobrevivência da espécie, soberania alimentar e renda às comunidades envolvidas no processo, configurando-se como um extraordinário caso de conservação da biodiversidade. Graças à atividade, o pirarucu voltou a habitar grande parte das várzeas amazônicas e não é mais uma espécie ameaçada. Com o esforço realizado para a implementação do manejo do pirarucu, que envolve atividades de contagem e a vigilância dos lagos, entre outras etapas, observa-se que os estoques de outras espécies aumentaram, como tambaqui, jacaré-açu, tartaruga, tracajá, peixe-boi.

(Foto Marizilda Cruppe/Divulgação)

O fortalecimento da organização comunitária e a manutenção da pesca artesanal, assim como outras práticas culturais das populações indígenas e ribeirinhas manejadoras, também são bons resultados relacionados ao manejo, que transforma os lagos protegidos em verdadeiras “poupanças bancárias”, geradoras de uma renda que supre as necessidades das famílias e permite realizar melhorias onde vivem. Tudo isso sem falar dos inúmeros benefícios aos diversos atores dos demais elos da cadeia de valor.

Mesmo com tantos aspectos positivos, as comunidades que trabalham o manejo do pirarucu enfrentam grandes desafios para a operacionalização da atividade e acesso a mercados que trazem maior retorno financeiro, tais como o alto custo de logística das atividades e o baixo preço de venda do produto recebido pelos comunitários. Os seguintes fatores ocasionam isso: falta de acesso a financiamentos para capital de giro e investimentos; mercado com poucos compradores; vendas pelos comunitários restritas aos atravessadores; baixo acesso às capacitações para produção e gestão da atividade, concorrência com a pesca e comercialização ilegal, entre outros.

É aí que o Gosto de Amazônia ganha importância: concluídas as cinco etapas do projeto, espera-se que a maior quantidade possível de bares e restaurantes do Rio de Janeiro passem a adotar o pirarucu de manejo em seus cardápios, e que um número significativo de consumidores tenham entrado em contato com o produto e conhecido os diversos benefícios do manejo sustentável. Dessa forma, um importante passo terá sido dado na valorização do pirarucu de manejo no Rio de Janeiro, o que poderá ser aproveitado em um futuro próximo na conquista de novos mercados.

(Na foto, crianças e jovens fazem uma apresentação surpresa para os visitantes./Foto Marizilda Cruppe/Divulgação)

(Na foto, cozinheiras e cozinheiros, no barco Dona Diolinda, no retorno a Lábrea, no final da viagem. Em pé, a partir da esquerda: Andressa Cabral, Fernando Blower, Ricardo Lapeyre, Bianca Barbosa, Frédéric Monnier, Ana Ribeiro, Milton Rôla e Marcelo Barcellos. Sentados, a partir da esquerda: Ana Pedrosa, Maria da Conceição Canto, Nara Rodrigues Ferreira, Teresa Corção, Jessica Trindade e Lucinete Santos de Sousa.
Foto Marizilda Cruppe/Divulgação)